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Entendendo a fisiologia do tratamento postural. 


As fibras musculares podem mudar? O que a ciência realmente diz sobre adaptação muscular e reeducação postural: uma revisão da literatura

 

Resumo

 

Durante muitos anos, acreditou-se que músculos “tônicos” e “fásicos” representavam categorias fixas e que uma fibra muscular poderia simplesmente transformar-se em outra. No entanto, os avanços da fisiologia muscular demonstram que essa visão é simplificada.


As evidências científicas atuais indicam que o tecido muscular apresenta elevada capacidade de adaptação, modificando gradualmente suas características estruturais, metabólicas e funcionais em resposta aos estímulos recebidos.


Esta revisão da literatura reúne os principais conhecimentos sobre a plasticidade das fibras musculares e discute suas implicações para a fisioterapia, especialmente nos tratamentos de reeducação postural, como o Método Schroth, a Reeducação Postural Global (RPG) e o Pilates Clínico.

 


 

 

Introdução

 

A classificação dos músculos em tônicos e fásicos é amplamente utilizada na fisioterapia para compreender alterações posturais e orientar o tratamento. Entretanto, essa divisão funcional costuma ser interpretada de forma equivocada, levando à ideia de que um músculo “troca” permanentemente seu tipo de fibra.

 

Nas últimas décadas, estudos em fisiologia, neurociência e biologia muscular demonstraram que o comportamento muscular é muito mais dinâmico do que se imaginava. Em vez de ocorrer uma simples conversão entre fibras rápidas e lentas, o músculo sofre um processo contínuo de adaptação, influenciado pelos estímulos mecânicos, metabólicos e, principalmente, neurais.

 

Este artigo apresenta uma revisão da literatura sobre esse processo de adaptação muscular, buscando traduzir os conceitos científicos para uma linguagem acessível e discutir suas aplicações na prática clínica da fisioterapia.

 

 

 

O que são fibras musculares tônicas e fásicas?

 

Na prática clínica, costuma-se dividir os músculos de acordo com sua principal função.

 

As chamadas fibras tônicas, correspondentes predominantemente às fibras do tipo I, apresentam contração lenta, elevada resistência à fadiga e são responsáveis por manter a postura corporal durante longos períodos. Músculos como os multífidos e o transverso do abdome são exemplos clássicos dessa função estabilizadora.

 

Já as fibras fásicas, compostas principalmente pelas fibras do tipo II, contraem-se rapidamente, produzem maior força e potência, porém fatigam com mais facilidade. Estão mais relacionadas aos movimentos rápidos e vigorosos, como os realizados pelo quadríceps e pelo glúteo máximo.

 

Do ponto de vista microscópico, essas diferenças são determinadas principalmente pelas isoformas da proteína miosina (Myosin Heavy Chain – MHC), responsáveis pelas características contráteis das fibras musculares.

 

 

 

A plasticidade muscular: o músculo está em constante adaptação

 

Uma das descobertas mais importantes da fisiologia moderna é que as fibras musculares não são estruturas completamente fixas.

 

Hoje se sabe que o músculo possui elevada capacidade de adaptação, modificando suas propriedades conforme o tipo de estímulo ao qual é submetido.

 

Em vez de ocorrer uma mudança abrupta entre fibras rápidas e lentas, existe um continuum adaptativo, no qual surgem inclusive fibras híbridas, que apresentam características intermediárias entre diferentes tipos de fibras.

 

Esse processo é conhecido como plasticidade muscular.

 

Assim, a adaptação ocorre de forma progressiva por meio da alteração da expressão de proteínas contráteis, do metabolismo energético e da forma como o sistema nervoso recruta as unidades motoras.

 

 

 

O que realmente muda dentro da fibra muscular?

 

As adaptações observadas pela literatura ocorrem principalmente em três níveis.

 

O primeiro envolve a alteração da expressão das isoformas de miosina, considerada o principal marcador do tipo de fibra muscular.

 

O segundo diz respeito ao metabolismo celular. Treinos de resistência favorecem o aumento do número de mitocôndrias e da capacidade oxidativa da fibra, tornando-a mais resistente à fadiga. Já estímulos voltados para potência e força aumentam a atividade das vias glicolíticas, favorecendo maior produção de força.

 

Por fim, talvez o aspecto mais importante seja a adaptação neural. O sistema nervoso modifica continuamente quais unidades motoras serão recrutadas, seguindo princípios fisiológicos como o Princípio do Tamanho de Henneman. Essa reorganização neural explica grande parte das mudanças funcionais observadas durante programas de treinamento e reabilitação.

 

 

 

Existe conversão entre fibras musculares?

 

As evidências atuais mostram que algumas mudanças são bem estabelecidas.

 

A conversão de fibras do tipo IIx para IIa ocorre frequentemente em resposta ao treinamento físico, especialmente quando há exercícios de resistência muscular. Também é comum observar que fibras rápidas passam a apresentar características mais oxidativas após programas prolongados de treinamento aeróbico.

 

Por outro lado, a transformação direta entre fibras do tipo II e fibras do tipo I em adultos permanece um tema controverso. Embora alguns estudos demonstrem que essa adaptação pode ocorrer em determinadas circunstâncias, ela é limitada, lenta e muito menos expressiva do que se acreditava anteriormente.

 

Assim, a literatura científica sugere que as adaptações acontecem principalmente entre os diferentes subtipos das fibras rápidas, enquanto mudanças entre fibras lentas e rápidas são mais discretas e dependem de estímulos prolongados.

 

 

 

O estímulo determina a adaptação

 

O músculo adapta-se ao tipo de uso que recebe.

 

Exercícios de longa duração e baixa intensidade favorecem características associadas às fibras do tipo I, aumentando a resistência à fadiga.

 

Treinamentos com cargas elevadas estimulam predominantemente características das fibras do tipo II, relacionadas à produção de força e potência.

 

Já programas de treinamento mistos tendem a favorecer fibras intermediárias, especialmente as do tipo IIa.

 

Em outras palavras, o músculo responde ao padrão de utilização imposto pelo organismo e não simplesmente ao objetivo desejado pelo praticante.

 

 

 

O que isso significa para a postura?

 

A aplicação desses conhecimentos torna-se especialmente interessante na fisioterapia postural.

 

Abordagens como a Reeducação Postural Global (RPG), o Método Schroth e os conceitos clássicos descritos por Kendall e Souchard costumam diferenciar músculos com tendência ao encurtamento daqueles mais propensos à inibição.

 

Entretanto, essa classificação não significa que um músculo tenha mudado definitivamente seu tipo de fibra.

 

Na realidade, o que ocorre é uma combinação de alterações no recrutamento neural, na resistência muscular, no metabolismo e na eficiência funcional.

 

Quando determinado músculo permanece ativo continuamente para manter a postura, ele desenvolve maior capacidade oxidativa e resistência à fadiga, adquirindo um comportamento funcional mais “tônico”.

 

Da mesma forma, músculos pouco utilizados apresentam redução do recrutamento neural, diminuição da eficiência motora e podem sofrer atrofia seletiva, dependendo do padrão de uso.

 

 

 

O sistema nervoso é o principal protagonista

 

Talvez a maior contribuição da ciência recente seja mostrar que o controle postural depende muito mais do sistema nervoso do que das próprias fibras musculares.

 

É o sistema nervoso central que determina quais unidades motoras serão recrutadas, quando serão ativadas e com que intensidade.

 

Consequentemente, o músculo adapta sua estrutura ao padrão de ativação recebido.

 

Essa compreensão modifica a forma de interpretar muitos achados clínicos.

 

Um músculo considerado “encurtado” frequentemente representa um padrão persistente de ativação neural.

 

Da mesma forma, um músculo aparentemente “fraco” nem sempre perdeu força estrutural; muitas vezes apresenta apenas um recrutamento inadequado.

 

 

 

Implicações para os tratamentos de reeducação postural

 

Sob essa perspectiva, intervenções como o Método Schroth, a RPG e o Pilates Clínico atuam muito mais na reorganização do controle motor do que na simples alteração das fibras musculares.

 

Esses métodos promovem reprogramação neural, melhoram o recrutamento seletivo de músculos estabilizadores, aumentam a coordenação motora e desenvolvem resistência postural por meio de exercícios de baixa carga mantidos por períodos prolongados.

 

Nos músculos com tendência ao excesso de atividade, utilizam-se estratégias como alongamentos sustentados, controle respiratório e redução da hiperatividade neural.

 

Já os músculos com menor participação funcional são estimulados inicialmente por exercícios de consciência corporal e controle motor, evoluindo posteriormente para fortalecimento funcional.

 

Embora essas intervenções não promovam uma conversão rápida entre tipos de fibras musculares, elas modificam significativamente o comportamento funcional do músculo ao longo do tempo, aumentando sua eficiência, resistência e capacidade de estabilização.

 

 

 

Conclusão

 

As evidências científicas disponíveis demonstram que a adaptação muscular é um processo contínuo e altamente influenciado pelos estímulos recebidos.

 

A antiga ideia de que uma fibra muscular simplesmente se transforma em outra foi substituída pelo conceito de plasticidade muscular, no qual alterações estruturais, metabólicas e neurais ocorrem de forma gradual.

 

Além disso, a literatura reforça que o sistema nervoso exerce papel central na organização do movimento e da postura, tornando a reprogramação neural um dos principais objetivos dos tratamentos fisioterapêuticos modernos.

 

Dessa forma, métodos de reeducação postural não atuam promovendo uma “troca de fibras musculares”, mas favorecendo adaptações funcionais capazes de melhorar o controle motor, a estabilidade e a eficiência do movimento.

 

Por fim, compreender esses mecanismos permite que profissionais da saúde expliquem aos pacientes, de maneira clara e baseada em evidências, por que a melhora da postura depende menos de mudanças estruturais imediatas e muito mais da capacidade do organismo de aprender novos padrões de movimento.

  

 

Autora: Aline Vasques



Referências (Revisão da Literatura)

 

·         Schiaffino S, Reggiani C. Fiber Types in Mammalian Skeletal Muscles. Physiological Reviews. 2011;91(4):1447-1531.

·         Bottinelli R, Reggiani C. Human Skeletal Muscle Fibres: Molecular and Functional Diversity. Progress in Biophysics and Molecular Biology. 2000.

·         Henneman E, Somjen G, Carpenter DO. Functional Significance of Cell Size in Spinal Motoneurons. Journal of Neurophysiology. 1965.

·         Lieber RL. Skeletal Muscle Structure, Function and Plasticity. 3rd ed. Lippincott Williams & Wilkins; 2010.

·         Powers SK, Howley ET. Exercise Physiology: Theory and Application to Fitness and Performance. McGraw-Hill.

·         Enoka RM, Duchateau J. Rate Coding and the Control of Muscle Force. Cold Spring Harbor Perspectives in Medicine. 2017.

·         American College of Sports Medicine. ACSM’s Guidelines for Exercise Testing and Prescription.

·         Souchard PE. Reeducação Postural Global: Método do Campo Fechado. Diversas edições.

·         Kendall FP, McCreary EK, Provance PG. Muscles: Testing and Function with Posture and Pain.

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