Reabilitação pós-artrodese na escoliose idiopática do adolescente: Schroth combinado ao core supera o treino isolado?
- Tratando Escoliose

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1. O cenário clínico
A Escoliose Idiopática do Adolescente (EIA) é uma alteração estrutural tridimensional da coluna vertebral, de origem multifatorial, diagnosticada quando o ângulo de Cobb é igual ou superior a 10°. A cirurgia é geralmente indicada quando a curva ultrapassa 45°–50°, visando interromper a progressão, corrigir a deformidade e restaurar o equilíbrio coronal e sagital do paciente.
O período pós-operatório apresenta desafios significativos. Evidências indicam que, mesmo 20 anos após a fusão espinhal, a resistência da musculatura do core permanece inferior à de indivíduos saudáveis. Nesse sentido, as diretrizes da SOSORT (2016) recomendam a fisioterapia pós-operatória para prevenir a progressão de curvas não fusionadas, melhorar a função pulmonar e a qualidade de vida. Entretanto, ainda faltava evidência robusta sobre qual abordagem reabilitadora seria mais eficaz, especialmente no que tange ao papel do método Schroth após a artrodese.
2. O estudo
O ensaio clínico randomizado, simples-cego, publicado na PLOS One (2026) por Meng et al., analisou 46 adolescentes com EIA tipo Lenke 1 submetidos a fusão torácica seletiva. Os participantes foram divididos em dois grupos:
● Grupo SCT (n=23): Exercícios tridimensionais de Schroth associados ao treino de estabilização do core.
● Grupo CT (n=23): Apenas treino de estabilização do core.
As intervenções ocorreram em sessões de 40 minutos, 3 a 4 vezes por semana, desde a alta hospitalar até completarem 6 meses de pós-operatório. A análise final contou com 36 pacientes (18 por grupo). O protocolo SCT foi estruturado de forma progressiva: os primeiros 3 meses focaram em core, respiração angular rotacional e educação postural nas atividades de vida diária (AVDs); entre o 4º e o 6º mês, foram introduzidas manobras corretivas tridimensionais de Schroth, adaptadas individualmente ao resultado cirúrgico e à curva não fusionada.
3. Principais achados
O estudo demonstrou ganhos superiores estatisticamente significativos no grupo SCT nos seguintes parâmetros:
● Equilíbrio pélvico: (p=0,032).
● Resistência dos extensores do tronco: aos 6 meses (p=0,035).
● Resistência dos flexores do tronco: aos 6 meses (p=0,046, em análise exploratória).
● Autoimagem (SRS-22): aos 6 meses (p=0,041).
Não foram observadas diferenças significativas entre os grupos quanto aos ângulos de Cobb (curvas principal e secundária), equilíbrio coronal e dos ombros, dor, saúde mental e simetria dos paravertebrais. Vale ressaltar que a cirurgia melhorou a simetria dos paravertebrais em ambos os grupos, independentemente do protocolo fisioterapêutico. Não foram registrados eventos adversos graves durante o estudo.
4. O que isso significa para a prática clínica
Os dados sugerem que adicionar o método Schroth ao treino de core traz benefícios funcionais e emocionais que o treino isolado não é capaz de alcançar. Para a prática clínica do fisioterapeuta, isso implica em:
● Progressão gradual e segura: Iniciar com foco em core, respiração e educação postural na fase aguda; introduzir manobras tridimensionais apenas após o 4º mês, mediante liberação cirúrgica e avaliação radiográfica.
● Individualização do tratamento: Aplicação de 2 a 3 manobras específicas por paciente, respeitando a nova biomecânica pós-cirúrgica.
● Foco nas AVDs: Orientação constante sobre posturas ao se sentar, caminhar e dormir.
● Supervisão contínua: Acompanhamento semanal com validação de exercícios domiciliares para garantir a adesão e a execução correta.
5. Implicações para pacientes em preparo para artrodese
A reabilitação deve ser iniciada precocemente, idealmente no 1º dia de pós-operatório, seguindo os princípios de recuperação em coordenação com a equipe cirúrgica. O estudo reforça que a cirurgia, isoladamente, não restaura a plena capacidade funcional: aos 3 meses, ambos os grupos ainda apresentavam força e resistência reduzidas.
O grupo SCT conseguiu recuperar os níveis pré-operatórios de força e resistência aos 6 meses, enquanto o grupo CT manteve déficits residuais. Além disso, a melhora na autoimagem é um fator crucial para a satisfação do paciente adolescente. Um ponto de atenção destacado pelos autores é a saúde mental: como nenhum protocolo incluiu suporte psicológico específico e não houve melhora nesse domínio, recomenda-se que futuros programas de reabilitação integrem essa avaliação.
6. Considerações finais e limitações
A combinação de Schroth ao core, de forma progressiva, mostra-se mais eficaz para a recuperação do equilíbrio pélvico, resistência muscular e autoimagem. Contudo, os resultados devem ser interpretados com cautela por se tratar de um estudo de centro único, com amostra modesta e seguimento de curto prazo (6 meses). Autores sugerem que estudos multicêntricos e de longo prazo são necessários, e que o uso do questionário SRS-30 pode ser mais sensível para avaliar a satisfação com o equilíbrio do tronco e ombros no futuro.

Referência: Meng F, Li K, Wang W, et al. Comparative efficacy of Schroth and core training for early postoperative recovery in adolescent idiopathic scoliosis: A single blind randomized controlled trial. PLOS One. 2026;21(1):e0340585.




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